Terça-feira, Junho 23, 2009

Fotos







Argentina, Si

É uma coisa muito interessante ler a imprensa Argentina com detalhes, como estou fazendo agora. Você leva um choque, por dois motivos : primeiro, você já sabia. Segundo, você não acreditava que era la verdad. Estou na Patagônia. Mira.

Sábado, Abril 18, 2009

O ciclo do fogo

Um dos grandes problemas da economia atual, em particular nos países mais afetados pela crise financeira internacional, é o chamado ciclo de crédito. De forma simples, a estrutura de crédito ao sofrer um colapso quebra sua corrente de transmissão. Toda corrente tem como lógica a força dos elos. Os elos são os ativos e seus derivados. Quando um banco não confia em outro banco (em função da estrutura dos seus ativos) o processo de erosão se inicia . Se esse processo é generalizado a crise de crédito se instala. É exatamente este o cenário atual.

O presidente do Federal Reserve (FED, Banco Central Americano), Ben Bernanke, afirmou ontem (17/04/09), que o colapso de crédito nos Estados Unidos causará um “dano duradouro”. E disse mais, […] Os empréstimos hipotecários de alto risco… os veículos de investimento estruturados e outros instrumentos financeiros de desenvolvimento recentes se tornaram o símbolo de nossa crise financeira atual. O dano que isso causou ao ciclo de crédito – em termos de patrimônio perdido, casas perdidas e históricos de crédito deformados – provavelmente durará por um longo tempo.”

Mr.Bernanke não pode dizê-lo, mas este fenômeno, já conhecido nos EUA, Europa e América Latina, pode se arrastar por mais de uma década. Uma parte importante dos consumidores não terá forças para se erguer, restabelecendo seu crédito e voltando ao ciclo de consumo. A era da gastança acabou.

Outro ponto importante: o que será “veículo de investimento estruturado” ? É exatamente isso que nós estamos lendo. Um termo imponente que tem como sentido o fato de ocultar uma gigantesca fraude contra investidores.

O presidente anterior do FED, Allan Greenspan, acreditava nas forças do mercado, disse inúmeras vezes que jamais uma organização financeira iria criar um instrumento de crédito que colocasse em risco o Ciclo de Crédito. Greespan não estava de todo errado. Ninguém pode por fogo na própria casa. Pode sim. Os bancos norte- americanos o fizeram.

Fonte: O Estado de São Paulo. Crise causa dano duradouro, diz FED. Economia Iternacional, 18/04/09, B9.

Imagen: Foto.1000imagens. R.Nunes.2009

Domingo, Abril 12, 2009

A União e Européia e O EURO


Quando falamos na queda do dólar, todos lembram do EURO. Sim, seria este o momento para o EURO (adotado por 16 países membros) mostrar sua força e sua importância como moeda internacional. Mas nem tudo na vida é como gostaríamos. As reservas internacionais e outras reservas não migrarão para EURO de forma implícita por alguns motivos básicos. O PIB da zona do euro recuou 1,6 % no quarto trimestre de 2008 (comparado com 1,5% de contração da União Européia). E mais:

• A Irlanda apresenta até o momento o maior déficit público de sua história
• A nota de crédito da Grécia foi rebaixada ao estatus de “junk” (no limite da bancarrota)
• A economia Espanhola resvala para seu pior momento dos últimos anos. Seu tradicional sistema financeiro e seus grandes bancos derretem feito sorvete em dias de verão.
• A economia Alemã, centrada em exportações (a força da Europa até então) mostra sinais de fadiga de forma relevante (queda de 8,2% no PIB em 2008).


A outra moeda mais importante da EUROPA? A libra. Bem, os ingleses emitiram libras demais para conter a crise. Como todo bom estudante de economia sabe, o primeiro efeito é a desvalorização da moeda e o segundo é a inflação. A libra desvalorizou 29%, comparado com seu pico de 2007 e inflação tocou o limite de 3,2%, diante de uma meta de 2%. Ou seja: infelizmente o EURO, assim como a Libra, são irmãos do dólar ( ainda que queiram negá-lo nessa hora) e deverão permanecer unidos, na felicidade, na alegria e na dor.

foto: 1000imagens

Para saber mais:
http://ec.europa.eu/economy_finance/the_euro/index_pt.htm
http://ec.europa.eu/economy_finance/the_euro/index_pt.htm

Sexta-feira, Abril 10, 2009

Uma parte da verdade

Mr. Lloyd Blankfein, presidente do conselho do Goldman Sachs, discursou esta semana em Washington, para o Conselho de Investidores Institucionais (Pearistein, Steven. The Washington Post) . Não foi o mea culpa esperado, como disse o articulista Pearistein. Os homens de Wall Street esqueceram de pedir desculpas a sociedade. Esqueceram de dizer muito obrigado ao governo federal (seu sócio desprezado e distante) e esqueceram de pedir perdão a seus clientes.

As palavras de Blankfein não merecem transcrição porque não carregam a essência da questão: a verdade. Blankfein apenas disse que o ano de 2009 foi humilhante. Talvez ele estivesse se referindo aos rendimentos dos executivos de bancos norte-americanos. De toda forma falta o pedido de desculpas, e mais; os banqueiros norte-americanos precisam confessar alguns dos seus pecados mortais. Primeiro: apego a uma cultura de lucro e incentivos que pouco tem a ver com os interesses da sociedade e muito menos da organização em que trabalham. Segundo: crer profundamente nos seus modelos matemáticos, que em verdade não passam de peças de ficção, vendidas a seus clientes como o máximo da sabedoria ocidental. Terceiro: comportamento atroz de desprezo pelas leis e demais regulamentações do mercado. Finalmente, entenderem, como parte do seu modelo de aprendizado, que organizações financeiras não são organizações sociais na divisão dos lucros, mas o são na divisão dos prejuízos.


PEARISTEIN, Steven. The Washington Post.

http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/discussion/2009/03/31/DI2009033102730.html

imagem: New York Times. Foto de Alessandro Della Valle/European Pressphoto Agency.


Leituras, O Dólar.


Depois dos gigantescos debates em sala de aula sobre o Dólar e seu futuro, vamos a uma leitura interessante. A Folha, através de sua editora PubliFolha, relançou o livro O DÓLAR, da coleção FOLHA EXPLICA. O livro do Prof.João Sayad (professor titular da FEA USP, ex-ministro do Planejamento, e atual secretário da Cultura de São Paulo), não pretende explicar tudo, mas explica o essencial, de forma clara e precisa, pelo menos para os que necessitam entender do assunto (por dever de ofício, ou por obrigação acadêmica). Leitura obrigatória para alunos de economia e administração de empresas e para demais pessoas interessadas no assunto.

É bom que se diga, de tempos em tempos, nos últimos anos, e sempre depois de crises medonhas, há uma volta sobre o tema: fim do dólar como moeda de curso internacional. O próprio EUA deu partida para o assunto em 1971 quando da decretação da inconversibilidade do dólar (fim do padrão ouro). No entanto, o vozerio mundial dos descontentes parece ter aumentado o tom. A China briga por um novo padrão. O Brasil também estabeleceu alinhamento e propôs o fim do dólar nas operações entre Brasil e China (como o faz com a Argentina atualmente). Notem a operação de aporte que o Brasil pretende fazer ao Fundo Monetário Internacional de US$ 4,5 bilhões. Será lastreada em dólares, mas convertida para DES (Direitos Especiais de Saque) a moeda do FMI, que passaria a compor as reservas do Brasil e seria uma forma sutil de trocar dólar por outra moeda de curso internacional.


Palavras chave: Livros, Dicas de Leituras, Leituras Obrigatórias, Economia, Dólar.

SAYAD, João. O dólar. São Paulo: Publifolha, 2002. (Coleção Folha Explica).



http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=3050793&sid=93822622311410627252993753&k5=1362C17A&uid=

Domingo, Março 29, 2009

Estados Fracassados


Uma escaramuça sombria ronda os EUA. O que falhou realmente? Jamais saberemos com detalhes, porque eles são e serão dolorosamente impertinentes para serem admitidos como verdade. Mas um conjunto muito forte de opiniões começam a ganhar vulto. A nação império está passando por seu teste de stress relativo ao tamanho do seu poder. O teste é simples. Quanto poder você tem? Quanto do seu poder é decisivo? Quanto do seu poder é volátil? Quanto do seu poder é capaz de conquistar mentes e corações? A lista poderia continuar de forma extensiva, mas não havendo respostas suficientemente convincentes para as primeiras indagações, é desnecessário continuar.


Uma nação império pode ser forte militarmente, mas deve ser inexpugnável quanto a seu poderio econômico e financeiro. Os EUA foram assim durante uma parte de sua vida (de 1945 a 1960). De 1960 até o último ano o mundo inteiro esqueceu que a nação império era apenas uma mera potência militar. Seu poderio econômico e financeiro se viu fragmentado diante da força de suas corporações industriais e financeiras. Os anos 70 e o governo Nixon podem ser definidos como o marco inicial desse processo.


A crise atual é a crise de uma nação governada por um conjunto de corporações. A corporação gloriosa é uma vitória do individualismo sobre os interesses de todos. A corporação gloriosa detesta o Estado e despreza seus agentes, porque tem consciência dos seus crimes e de sua vulgaridade visível. Essa é a questão do império. Quanto poder lhe restou depois do assalto de suas corporações? Quanto poder lhe restou depois da entrega da chave do cofre do tesouro a seus meninos bandidos?


Na reunião de G20, em abril próximo, veremos ataques à nação império em proporções devastadoras. A Europa dirá que a crise bancária é totalmente responsabilidade dos americanos e suas leis de brincadeira quanto ao sistema financeiro, os pobres gritarão suas ofensas habituais e a China pedirá o fim do dólar como padrão de moeda internacional. Parece pouco, mas não é. É o fim de uma era.

Fonte- imagens: 1000 imagens.solidão


Terça-feira, Janeiro 06, 2009

Avalanches, o poder do Sim.


Crises sistêmicas são como avalanche. O efeito é sempre devastador. Mas, os conhecedores da montanha, os guias e freqüentadores profissionais, sabem onde ela é mais mortífera e sensível e jamais brincam com a natureza e seus efeitos. Assim também o é no mercado financeiro. Os conhecedores e freqüentadores profissionais sabem onde a avalanche está mais presente e onde a vulnerabilidade dos agentes é percebida com intensidade mortal.
Na economia financeira do século XXI o potencial de avalanche (e suas conseqüências ) está no sistema de crédito direto ao consumidor, os demais produtos financeiros são conseqüência de um mercado em expansão. Ocorre que os guias e conhecedores da montanha receberam comissões ultrajantes para tornarem-se cegos, moucos e loucos.
Pois vejam só esta edificante história de um banco norte-americano falido, o Washington Mutual, especialista em crédito imobiliário e conhecido como WaMu. John Parsons, uma espécie de gerente de crédito imobiliário, recebeu um fantástico pedido de crédito (que rende uma bela comissão) . Seu cliente alegou salário de seis dígitos, mas não tinha qualquer documento que comprovasse que sua profissão, cantor de mariachi em inferninhos da região, pudesse lhe render realmente aqueles ganhos. Mas a fama do WaMu era sempre dizer sim. Parsons pediu qualquer documento do seu cliente para anexar ao processo de concessão de financiamento imobiliário. Este último não se fez de rogado e lhe entregou prontamente sua foto, vestido a caráter , com seu fardão de mariachi. A foto foi anexada ao processo e o empréstimo saiu. Em setembro de 2008 o WaMu faliu, com dívidas de US$ 4 bilhões. Parsons agora deverá contar sua história num tribunal federal de Seatle e confirmar outros 89 depoimentos de gerentes e outros funcionários. Todos incriminarão Kerry Killinger, executivo principal do WaMu desde 1990. O homem que criou o sistema de dizer SIM para qualquer um que pedisse um empréstimo , desde que lhe rendesse ótimas bonificações ao final do ano. Enquanto o WaMu desfalecia, Killinger embolsava mais de US$ 100milhões em bonificações e gratificações.


Fonte: Folha de S.Paulo. Um credor que dizia sim a todos. Peter S. Goodman e Gretchen Morgenson. The New York Times, Tendências Mundiais, pg.2. 05/01/09.

Fonte original: Saying Yes, WaMu Built Empire on Shaky Loans . The New York Times:



Da série " Histórias Extraordinárias da Crise dos Mercados de 2008."

Domingo, Dezembro 28, 2008

Como eles foram felizes!


Texto original: Gilles Lapouge

“Uma idéia estranha circula em Paris: a presente crise não existe. Os políticos a inventaram , por razões obscuras, e os meios de comunicação, encantados seguiram atrás. Tudo isso é uma mentira, um embotamento dos espíritos. A verdade é que tudo vai muito bem. Uma sondagem de opinião espantosa foi publicada: 50% dos franceses acham que 'tudo vai muito bem'.
Nada parecido com isso na Inglaterra. Lá, as pessoas estão apertando os cintos. As grandes lojas, atoladas em encalhes, lançam liquidações com oito dias de antecedência, na Harvey Nichols, na Selfridges. [...] A explicação seria a seguinte: a economia inglesa está puxada cada vez mais pelos serviços e, sobretudo, os serviços financeiros. O parque produtivo inglês é reduzido e de baixa qualidade. Assim, a crise, que é financeira, atingiu com toda força a Inglaterra, mais que qualquer outro país, e, singularmente, as altas finanças da City, o distrito financeiro de Londres.

Há semanas se recolhem os operadores arruinados com pás nas calçadas da City, como se fossem as folhas mortas de outono. Ora, esses traders, jovens luxuosos, esnobes, dândies, aristocráticos e vulgares tinham o hábito de esbanjar as enormes gratificações imorais, no Natal. Nada de gratificações neste ano. Em lugar das gratificações , chutes no traseiro! Nessas condições, com o traseiro dolorido os bolsos vazios, quem iria despejar fortunas na Harrolds, na Woolworths ou na Knightsbridge?
É essa a desgraça da Inglaterra. Já se explicou amiúde aos países subdesenvolvidos que é perigoso basear toda uma economia numa 'monocultura', de trigo, milho, cacau ou canela. Isso também vale para os países superdesenvolvidos, como a Inglaterra, que se entregou cegamente a uma 'monocultura', a monocultura do dinheiro.”


Fonte:
O Estado de São Paulo. Uma idéia estranha em Paris. Gilles Lapouge. Economia, 27/12/08,p.b5.
Reproduzimos o texto acima como parte da série " Histórias Extraordinárias da Crise dos Mercados de 2008."